sábado, 6 de outubro de 2012

Traçar para mim

A minha vida está sempre nas mãos dos outros
A minha vida não me pertence
Tudo o que eu faço é tolhido
Qualquer iniciativa minha não bem vinda
Todos dizem que eu sou louco
Somente porque eu tomo barbitúrico e frequentei a APAE
Em todos os lugares que eu vou jogam na minha cara
Você toma gardenol
Bem não é verdade
Mas o principio ativo é o mesmo
E daí que eu tomo?
Isso não quer dizer absolutamente nada
Eu procuro saúde
Logo que eu levanto sem nada no estomago vou ao Horto Florestal
Dar vinte voltas em torno do seu campo
Fazer quatrocentos abdominais
A minha obsessão é o esporte
E a esperança que alguém que me descubra para me profissionalizar
No caminho para o Horto sai da minha casa na Rua Paissandu e vou ao Aterrado na corrida nas calçadas com os olhares curiosos de quem mora ou de quem passa
Na verdade eu vos digo eles querem selar o meu destino
Determinar o que eu vou pensar
E o que eu penso
O que vai do meu corpo?
O que será do meu destino
Os meus sonhos irão virar pesadelos
Qual será a minha verdade
A mentira que os outros contam de mim
Ou a verdade o que acontece comigo
O que pode ou não pode
O que eu vou poder fazer
Somente os que os permitirem
Se não for assim eu irei sofrer represália
O que eu tenho é a minha vida
E os mojimirianos querem tomar conta dela
A minha vida me pertence
Deixe-me viver como eu quiser pombas!
Eu nunca fiz o que o queria fazer
Eu queria trabalhar em um jornal
Eu fui até “A comarca”
Foram até a minha casa
E o meu pai disse ao jornal
Deixa-o comigo
Ele não vai trabalhar com os outros
Eu sei o que eu faço
Ele vai trabalhar comigo
Ora assim eu poderei escolher a minha vida
Ora assim eu não poderei viver a minha vida.

Luís Antonio Padovani
Escrito na página 6/12/1986

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