I
Cala a boca
Você não sabe nada
Cala a boca
Você não sabe nada
Não saber nada é triste
Ou, por outro lado, impossível.
Pois sempre alguma coisa de nossas vidas sabe.
Então, por que este “cala a boca”,
“Você não sabe nas”?
É, sim, uma repressão.
Cala, a boca nada.
É... Mas tem de que falar
Coisas erradas que estão acontecendo ao nosso redor
Em torno de todos nós, para todos verem.
Para constatarem a forma errada.
Cala boca uma ova!
Tem mais que falar.
Tem mais que falar.
Esta forma arcaica de se dirigir é fracassada
Alguma coisa se sabe de si mesmo
Ou alguma coisa se sabe pelas emissoras,
Emissoras de rádio ou televisão
Ou por algum canal do cinema.
Nós não podemos deixar algo assim
Não podemos deixar que alguém nos dirija assim
Nem permitir que nos reprima
Nem permitir que aça de nós um instrumento só de uso
O instrumento que serve só para alegrar
O instrumento que faz deixar mágoa através da tristeza.
Não devemos nos conformar nunca com o que não nos contenta
Como o que não nos agrada
Se o fizermos seremos passados para trás
Passados por despercebidos
Tem mais é que falar, cantar, alegrar.
Tem mais é que dar um ar doce para as pessoas
Mas se não gostar do cenário o que fazer?
Se não obtivermos meios de sustentação
Se dependermos de outros
Se a economia for escassa
- Ou não tiver nenhuma-
Isolar para não perceber
Ou participar calado
Ou deixar a maré amainar
Não querer participar é enfraquecer
Querer participar é se fortalecer
Mas a participação não-ativa também enfraquece.
II
Há meios de comunicação que participam a todos com vigor e
bom gosto.
É forte, é potente.
Entra você, a cada dia de nossas vidas, bem mais perto.
Para que nós também tomemos parte do mundo
Parte das informações para que aqueles poucos, que não podem
se divertir,
Pelo menos não passem sem se divertir.
Estes poucos tenham a vida melhor
Tenham a vida mais agradável.
Para os aleijados e doentes
2o parte
Para is acompanhantes dos enfermos
A todos que não podem ter uma vida social regular
Para todos que têm a vida presa
Mas perdem na medida em que não há comunicação verbal
Mas ajuda em uma fase da vida
Quando as pessoas trabalham, você é o descanso.
Descanso do trabalho
Tira a comunicação familiar
Enderece as pessoas de uma família
Faz que elas parem de acontecer
Pois, tira-lhes a vida social.
Para assistir às novelas
As programações musicais, artísticas, do mês, da noite, da
semana.
Tudo de longo tempo para ficar sentado,
Ouvindo, vendo, tirando a atenção
Os livros não mais são lidos nesses horários
A programação cultural é deixada par mais tarde
Os passeios à pracinha não são mais frequentes
E a vida prossegue
Que modos são esses?
Cada momento que se perde
É um momento que se fica sem algo a fazer
O lugar em que não se quer ter o convívio
O lugar em que não se preocupa em sair
Isto não é viver
Não é vegetar
Mas não é gozar.
É ficar todos os instantes coma a mão trêmula
O rosto pálido
A respiração defeituosa
É o modo de expressar, de se comunicar.
Logo, calar a boca não adianta.
Não refletiria a realidade
Expressar é o único modo que não pode alguém impedir
É o único modo que incomoda os demais
E como dizer? Como? O que dizer?
Como querer demonstrar?
Como querer fazer algo que não é o convencional?
É deixar os cabelos crescerem com se fosse um rebelde.
Não penteá-lo
Não reparti-lo
Ou então não tomar banho.
Fazer exatamente o oposto às normas sociais
Deixar de lado o padrão da vida moderna
Virar hippie
Isto é por causa daquele “cala a boca”
Porém no mundo há mais maneiras de falar que não seja pela
boca.
III
De forma que
Mandar calar a boca não adianta nada
Tem que, isto sim, solucionar o problema.
Tem isto sim, muito que dialogar.
Dialogar só, não.
Porque se só dialogo adiantar, o nordeste não passaria mais
secas.
Não existiria o menor abandonado
Não haveria mais presos
Então, o que se tem a fazer, mesmo, é dar participação
social.
É fazer somar a outros
É fazer deixar de lado o maior número de preconceitos.
É fazer crescer dentro de si
É fazer melhor que sem participação não é vida
Por uma causa ou outra
Por ter ódio do cenário
Ou querer viver.
2o parte
Fale tudo com certeza
Não querer viver é um absurdo
Não se compreende.
Querer viver é como se fosse um encontro permanente
Dias repletos de emoções, alegrias e tristezas.
É viver aproveitando o instante
É ouvir vaias e aplausos
É escutar para ficar
Encher-se de satisfação
É quase chorar de contentamento
É parar de escutar
É parar de respirar normalmente
É aproveitar todo momento que a vida nos fornece
Não querer viver não é possível.
Será possível se não gostar da pessoa que esta ao lado
Bem, aí a coisa muda de figura.
Não se pode dizer com qual companhia deva sair
Não deve dizer coisas que não sabe
Dizer que alguém é bicha, se não teve relações.
Absurdo à parte,
Dizer que fulano é mau-caráter
Realmente é um absurdo.
Mostrar o que se diz é uma coisa,
Outra coisa é ficar na palavra
Ou então no
diz-que-diz, que,
Luís Antonio Padovani
Não tem valor
Pois se fala assim só quando foge da compreensão
O telefone é só discar que é alô,
Grande Bell, que o fez primeiro.
A luz é só apertar um botão e acende.
Para isso pesquisas foram feitas.
Para isso novas dimensões foram adquiridas
Mas o que tem a ver isto no cotidiano?
Tudo, pois foi através da compreensão dos fatos que hoje se
tem o que se tem.
3º parte
Tu não viver, mas
estás sempre presente.
Ô gloria de viver deverias er de todos.
Mas não és.
Deverias deixar que as guerras cessassem
Mas não cessam.
Morrer ale é todo dia
Tudo dia morre um baleado.
Um só não, é muitas centenas.
Milhões se sacrificam para poucos
Terem um dia um prêmio.
Ô glória, que estás no caminho de poucos.
Ô glória, quem tu és?
Tu não pareces para todos
Quem tu és?
Quem tu és?
Tu não falas
Tu não respiras
Tu não andas
Tu não dormes
Tu não cochilas, quando estás em pé.
Tu sempre és forte.
Tu sempre dás uma ajeitadinha par mudar os fatos.
Ô glória, tu tens nome de mulher.
Tu és uma fada
Tu és uma fada mágica
A quem tudo pertence
A quem tudo é direito
Tu não negas
Tu não afirmas
Tu, sempre viva.
Tu não morres.
Mas tu apreces na vida de poucos,
Apareces tu só para glorificá-los.
Tu não escreves
Tu não vês
Tu não lês
Tu não és um ser vivo
Tu não falas
Tu estás sempre presente.
Ô gloria, que apreces na vida.
Apareces na vida dos muitos que não te sentiram.
Como criar
4º parte
I
Na vida se vêem muitas coisas
Elas são passadas de surpresa
Elas são vistas maldosamente
Elas passam despercebidas
Elas nem são anotadas
Elas são comentadas
Elas são percebidas por todos
Elas são percebidas por uns
Elas são ganhas por outros
Elas ditam as normas de comportamento de uns para com os
outros.
Elas podem determinar a condição para viver.
Ou condições para ter medo.
Medo, não de cachorro.
De animais
De carro ou outros veículos
Não é falta de coragem de viver.
Medo é falta de coragem de sair às vias públicas
Mas não é para se ter medo, pois se é via pública é de
todos.
II
Como é que se vêem
seres humanos
Sentados sem fazer nada
Seres que são a toda
Seres que não querem viver
Seres que não querem viver
Seres que pertencem uma raça superior
Seres que também podem chorar
Seres que respiram.
Seres que andam.
Seres que alguma coisa pode dar
Para em troca ganharem respeito.
Pare em troca viverem dignamente
Para em troca receberem o que é direito
Viverem uma glória.
Viverem um instante diferente
Adquirirem novos momentos
Terem uma vida agitada
Uma vida cheia de alegrias
Uma vida pode-se dizer quase que é frutífera.
Uma vida de pessoas normais convivendo com as outras.
Convier não é fácil.
Mas conviver é necessário.
E só assim que se adquirem novos valores
Valores que estão dentro de cada um
Valores que, se mostrados, são valores qualitativos.
Valores de certa forma de trabalho
Como pensar? É trabalhar.
Trabalhar é crescer.
Crescer é glorificar, é começar a viver.
A partir daí tem-se o que quer
A partir daí é que se vive com respeito,
Dão crédito
Olham de outro modo,
É porque já está trabalhando, para o sistema.
Tem mais dias interessante
Uma coisa interessante
5º parte
Uma coisa interessante,
Já viram uma cachorro latir?
Aposto que vão dizer que sim.
Já viram um gato miar?
Também, sou capaz de afirmar que sim.
Já viram um leão rugir?
Claro que sim.
Já viram um macaco fazer graças?
Quem não os viu?
Todos, de certa forma, algum dia devem ter visto tudo isso.
Claro que sim, pois quem não foi a um zoológico ou passeou
na rua.
Ou então quem não foi ao parque quando criança?
Bem, se não vê assim, para fazer.
Quem está para fazer adulto não é,
É criança que nesta fase quer tudo.
É nesta fase que não quer nada
É uma pessoa se descobrindo
É uma pessoa florescendo
É uma pessoa sorrindo, abrindo caminho,
Abrindo para viver.
II
No começo eu perguntei se alguém viu certos animais.
Quis perguntar a mim mesmo, também. Se eu não tivesse visto,
Portanto, num dia no zôo,
Ido ao circo,
Ou tivesse vivido,
Aí eu estaria preocupado, pois todos vivenciaram estas
pequenas coisas,
Pequenas coisas que não são grandes.
Eu penso, se um animal agisse como um homem.
Falasse, raciocinasse, fosse inteligente em seu mundo
Acho que teria de viver com os homens.
Mas não existe coisa assim
O homem é o único ser pensante.
Mas, se um animal das outras raças fizesse o mesmo,
Bem, ele não poderia viver junto da família,
Do meio que ele gosta
Do meio em que ,se ele saísse, morreria
Estou estagnado
6º parte
I
Hoje é o dia me falam.
Falam comigo... É melhor não ter falado
Pois isto eu não queria
Agora você me apoquenta
Ou me aborrecem aqueles que ficam quietos
Porque fazem à vida dos outros
Ser uma solução.
Be que digo
Digo sempre não gostar
Você pode voltar
A escolha é uma
A escolha tomada tem que ser respeitada.
II
Quero dizer tantas coisas
Mas tantas coisas, mesmo
Mas neste instante não está dando
Estou bloqueado
Só sei dizer estas palavras
Elas são poucas, mas para mim representam tanto!
Representam um alivio
Para daqui a pouco continuar
Aquilo que eu me propus.
7º parte
Reprime um, reprime outro.
O fato mesmo é que nunca admito o que está reprimindo.
Nunca diga esta palavra
Pois ela é chata.
Palavra chata?
Sim, ela existe,
Existe no tocante ao inviolável significado
Pois o chato dela é o seu sentido
Reprimir...,...,...,...,...
Não é como andar, passear, correr,
Existe nela algo que ninguém gosta.
Num país nunca houve repressão através de seus governantes,
Sempre através da outras nações.
Mar
8º parte
Através do seu ver, piscina põe-se imponente.
Em alto, bruto, não sai a sua majestade.
Tenha cuidado!
Não vá ao fundo!
Não passe da praia!
Fique perto de alguém
De alguém que o respeite
De alguém que lhe dê atenção
De alguém que seja amigos
Um amigo para valer
Pois quando ele dá levar, ele leva.
Novidade
9º parte
O mundo escraviza a gente,
Por que alguém passa, pergunta de onde você é?
Ninguém é obrigado a responder isto.
Afinal, não se pode ficar preso a um destino.
Perguntam-se quais são os seus antecedentes,
Mas eu sou uma pessoa
Meus antecedentes são outras
De forma que sou eu que tenho de viver.
É importante saber que tudo gira,
Gira par uma pessoa
Não para seus antecedentes.
O mundo é assim, quem pensa em mudar.
Pensa erra.
O mundo muda por si, e por si é mudado.
Mas o que faz o mundo mudar
São os acontecimentos
São os fatos
É a história
São os homens que a constroem.
De forma que a mudança de uma sociedade é demorada.
O mundo, afinal, é o mundo,
Com ou sem ele vamos viver.
II
Mundo do mundo de quem não faz nada
É um mundo pequeno
De falsas
De falsas ilusões
Vive-se quando se é criança
Criança pequena
Por que dizer adulto?
Porque o adulto esconde a sua criança.
Estou à procura do fim
10º parte
Estou amargando uma continuidade
Mas eu desejo acabar
Mas eu tenho cem outros assuntos para botar
Sempre quero acabar
Sempre penso aqui termino
Mas não termino.
Sempre penso: este é o derradeiro parágrafo
Mas é engano
Engano porque eu não termino.
Isto é, há algo em mim que quer tirar a minha vontade.
Algo em mim que está me policiando
Algo quer que eu leve avante.
Agora acaba a folha, eu estou escrevendo.
Mas eu não desejo.
Se eu não desejo faço este o fim
E agora acabou
É o fim
Agora é o encerramento que eu desejo dar
Agora estou dando
De fato é o FIM.
Escrito na página 4/12/1986
1983
Publicado no livro "Q Dê Sete
Editora João Scortecci
São Paulo, São Paulo
Ano da publicação 1996
Ano da publicação 1996
Páginas 9, 10, 11, 12. 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21 e 22
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