INT. QUARTO – FIM DE
TARDE
Maria Adelaide está
em seu quarto de frente a uma penteadeira lotada de maquiagens, joia e de um imenso espelho.
De espreita o tio de
Maria Adelaide observa toda a cena por entre a porta
O tio de Maria Adelaide a vê a se maquiar toda em frente ao espelho de
seu quarto:
TIO DE MARIA ADELAIDE
Para onde você vai?
Com quem você vai se encontrar?
MARIA ADELAIDE
Com Carlos Pinta Brava.
TIO DE MARIA ADELAIDE
Ele não vale nada
MARIA ADELAIDE
Mas é com ele que eu vou me encontrar.
TIO DE MARIA ADELAIDE
Então tenha uma boa sorte.
INT. CARRO – NOITE
Maria Adelaide dirige
pelas ruas da cidade.
MARIA ADELAIDE (V.O.)
VO Nas vezes que eu encontrei com ele, estava sozinho
em uma mesa e fui até ele foi sempre educado comigo.
Será que o Carlos é tudo aquilo que o povo fala dele?
Eu o vejo sempre sozinho de um lado do outro da cidade o que falta para
ele é uma companheira.
EXT. BAR – NOITE
Carlos em pé, divaga
sozinho de um lado para o outo e ao mesmo tempo campeia uma mesa no bar.
Músicos tocam e algumas pessoas dançam em pé. O bar está lotado.
Olha a sua esquerda e
a sua direita
CARLOS
(cochichando)
Ela vira?
Será que ela será mais uma que vai me largar?
Essa vadia não vem!
Ela não pode escutar isso se não o nosso romance vai acabar antes de
começar.
Eu preciso de alguém que me escute.
Eu falo, falo e ninguém me escuta.
Carlos acha uma mesa
vazia na calçada, ele senta-se.
O GARÇON
O senhor que algo?
CARLOS
Uma cerveja sem álcool.
De repente chega
Maria Adelaide, vê Carlos desacompanhado buzina duas vezes brevemente.
MARIA ADELAIDE
(grita)
Oi Pinta Brava espera um momento que já vou aí.
Ela estaciona o
possante. Desce do carro e vai ao encontro de Carlos.
CARLOS
Oi meu amor.
Ela o beija no rosto
por duas vezes
MARIA ADELAIDE
Carlos o boteco está lotado.
Não tem espaço para andar direito.
Eu convidei uma amiga minha para vir conversar com a gente.
CARLOS
Porque você fez isso?
O garçom chega com a
bebida de Carlos.
Pergunta para a sua
companheira.
E a senhora
MARIA ADILAIDE
Uma cerveja.
O garçom se afasta e
a conversa continua
MARIA ADELAIDE
Eu não quero voltar sozinha para casa e ela precisa de ajuda, pois tem
pânico.
Eu tenho um dó dela.
CARLOS
É ela tem um problema sério vamos resolver o problema dela por hoje, mas
você a sabe já procurou alguma ajuda?
MARIA ADELAIDE
Ela não é muito de conversar.
Ela vai da casa dela para o trabalho e do trabalho para casa e às vezes
vou até a casa dela para tomar uma breja estupidamente gelada.
CARLOS
Vocês gostam de cerveja?
MARIA ADELAIDE
A gente já saiu juntos algumas vezes, e eu nunca vi você com uma
cerveja!
CARLOS
E do que você gosta de um homem ou de cerveja.
MARIA ADELAIDE
Eu não dei liberdade para você falar assim comigo.
CARLOS
Desculpa-me, mas estou cansado de ouvir as mesmas ladainhas e vi nessa
ocasião para me desabafar.
MARIA ADELAIDE
Tudo bem, eu já sabia que você é muito carente.
Nisso chega Acácia
Medalha vinda do seu trabalho, senta ao lado de Maria Adelaide, que está
abraçada com Carlos.
MARIA ADELAIDE
Essa é a minha amiga
O nome dela é Acácia Medalha
CARLOS
Vejo você trabalha na loja Riba Modas.
Você é uma negra bonita.
ACÁCIA MEDALHA
Isso é preconceito?
CARLOS
Não
ACÁCIA MEDALHA
Você não falaria assim de Maria Adelaide
O GARÇOM
Dirige-se a Acácia Medalha
A senhora quer algo
ACÁCIA MEDALHA
Uma cerveja
O garçom sai
CARLOS
É a força do costume
ACÁCIA MEDALHA
Não é não é preconceito
CARLOS
É a minha maneira de expressar.
ACÁCIA MEDALHA.
Não é não.
Na mesa do bar estão três cervejas sem álcool, sete com álcool.
MARIA ADELAIDE
Vejo que você não toma nada?
CARLOS
Como não!
Eu já tomei três latinhas de cerveja sem álcool
MARIA ADELAIDE
Mas todo mundo toma cerveja?
CARLOS
Eu não sou todo mundo.
Eu sou Carlos Pinta Brava.
MARIA ADELAIDE
Por que você quer ser diferente?
CARLOS
Eu sou diferente
MARIA ADELAIDE
Você tem algum problema?
CARLOS
Tenho você
MARIA ADELAIDE
Como você é grosseiro!
CARLOS
Grossa é você.
MARIA ADELAIDE
Eu não quero mais conversar com você.
Você não vê que eu e minha amiga tomamos cerveja só você que não.
ACÁCIA MEDALHA
Todo mundo aqui toma a sua bebida alcoólica
CARLOS
Eu não sou todo mundo.
ACÁCIA MEDALHA
Qual é o seu problema?
CARLOS
O meu problema eu resolvo com um fenobarbital, pois tenho ataque
epiléptico.
ACÁCIA MEDALHA
Então você e louco, apesar de ter tudo ser um branco como Maria Adelaide
com olhos azuis e tem algum dinheiro.
CARLOS
A epilepsia eu controlo com remédio e vocês precisam ir ao um psiquiatra
ou psicólogo.
MARIA ADELAIDE
E prefiro ficar com a minha amiga a com você.
CARLOS
Se você realmente me quer vá a um neurologista que dará todas as
orientações necessárias para você do meu problema.
MARIA ADELAIDE
Acácia Medalha me deixa com o Carlos um pouco sozinhos que preciso falar com ele.
ACÁCIA MEDALHA
Você vai ficar com esse sujeito?
MARIA ADELAIDE
Vai sentar lá no banco da praça que eu já vou.
Acácia medalha fica furiosa
ACÁCIA
MEDALHA
Aponta o dedo indicador para Carlos, afirma:
Com você Carlos eu não ficaria nunca.
Você não quer ouvir ninguém!
CARLOS
Na era da inclusão, do facebook, do e-mail e
do whatsap você tem um pensamento desse?
ACÁCIA
MEDALHA
Isso não tem nada haver.
em
CARLOS
Tem tudo haver.
Acácia Medalha vira-se para sair e deixa o
casal
MARIA ADELAIDE
Eu falo sério eu não saio com homem que não enche a cara.
CARLOS
Eu também falo sério você quer um copo de cerveja ou um homem?
A proposito você saiu comigo porque Nicolas Pereira falou que sou um
rapaz bom sábado passado no restaurante de Abreu Lino depois que você gritou de
frente a mesa que nós estávamos o seu desejo que queria um homem várias vezes e
eu prontamente disse por que não eu.
Você ficou de pensar com os seus amigos, depois de alguns minutos pediu
o meu telefone celular e disse se quisesse sair comigo ligaria e ontem você
ligou.
MARIA ADELAIDE
È verdade, mas eu não sabia que você não
bebia.
CARLOS
Parece que agora se arrependeu!
E agora faça a sua escolha.
MARIA ADELAIDE
Parece que eu estou em uma sinuca de bico, eu
vou ter que fazer essa escolha.
CARLOS
Tem, pois eu não posso satisfazer você das duas maneiras.
Se você quer um homem eu estou aqui.
Se você quer cerveja fique com ela.
MARIA ADELAIDE
Então vamos andar um pouco.
Aonde você quer ir?
CARLOS
Quero comer cachorro quente.
MARIA ADELAIDE
Então vamos assim eu vou pensar mais um pouco
CARLOS
E a sua amiga?
MARIA ADELAIDE
Ela vai junto.
Ambos saem agarrados,
passa por Acácia Medalha, Maria Adelaide acena para a amiga e ela segue o casal
ao lado de Maria Adelaide.
EXT. CALÇADA/CARRINHO
DE CACHORRO QUENTE - NOITE
No carrinho de
cachorro quente da Márcia. Com oito cadeiras de plástico e duas mesas sobre a
calçada de frente a um estacionamento
ACÁCIA MEDALHA
Eu quero um cachorro quente completo.
MARIA ADELAIDE
Eu quero sem catchup
CARLOS
Eu quero sem mostarda e sem batata palha.
MÁRCIA
E aí e a namorada?
CARLOS
Ela está aqui.
É esta loirona, altona
MARIA ADELAIDE
Eu não sou a sua namorada.
Eu vou namorar você quando você tiver atitude homem.
Homem que é homem toma cerveja.
Seja sociável, agradável e outro aviso você não usa calça jeans.
CARLOS
Não é porque não quer eu estou sozinho e você também
Pelo que eu ouço você quer cerveja e calça jeans então fique com eles.
MARIA ADELAIDE
Eu quero é um homem com atitude de homem.
CARLOS
O que você entende por atitude de homem?
Você disse quer homem
Eu quero uma mulher
Tudo o que eu tenho você quer
Tudo que você tem eu quero.
MARIA ADELAIDE
(dirigindo-se a Márcia - proprietária do carrinho)
Você não toma cerveja?
Todo mundo tem problemas!
MARIA ADELAIDE
Quem é você?
Márcia é o meu nome.
O Carlos vem sempre aqui para conversar comigo e o meu marido Pedro Lam
O meu marido tem colesterol e diabetes
ACÁCIA MEDALHA
Isso todo mundo tem, mas Carlos tem problema de louco.
MÁRCIA
Eu não tenho nenhum problema com ele
O que falta a ele é alguém que o apoio
Ele não pode ficar sozinho
Ele precisa de alguém que o escute.
Toda panela tem a sua tampa.
MARIA ADELAIDE
Eu concordo então eu vou ficar com ele
MÁRCIA
Então não se esqueça do que eu falei, e não deixa que ninguém
influenciar no relacionamento de vocês dois.
MARIA ADELAIDE
Pode deixar eu vou fazer chá
MÁRCIA
O que?
MARIA ADELAIDE
Pode deixar.
Nós vamos fazer uma linda família.
MÁRCIA
Fico feliz por vocês
ACÁCIA MEDALHA
Você vai ficar com esse louco?
CARLOS
Parece que você não entendeu!
O mundo esta em mudanças com a inclusão de pessoas que antes ninguém
aceitava.
MARIA ADELAIDE
Do mesmo modo que você sofre preconceito por ser negra e alta ele sofre
por ser epiléptico.
ACÁCIA MEDALHA
Então bom proveito.
MÁRCIA
Do que vocês vieram?
MARIA ADELAIDE
Eu vim de carro que está ao lado do bar do Reneu
Carlos já me esperava no bar.
CARLOS
E a sua amiga.
MARIA ADELAIDE
Eu vou deixa-la na casa dela.
Carlos, Maria Adelaide e Acácia Medalha saem.
O carrinho do lanche começa a lotar.
São vinte e uma horas
MÁRCIA
(aos berros)
Boa sorte aos dois.
INT.
SALA DE VISITAS TARDE
Cartela
na tela “8 ANOS DEPOIS”.
Convidados de Carlos e Maria Adelaide sentados no
sofá Antonia, nome social de Paolo Castro, à sua direita Castela Milagra Porta
Dura, à esquerda de Antonia, em uma poltrona de um lugar encostada à janela da
sala está O Halinio Julgares, em uma outra poltrona de um lugar só localizada
perto de uma das paredes e mais duas cadeiras retiradas da mesa da copa estão
Bianca e na outra Naudeo.
Há uma mesa de centro no ambiente onde estão várias
sacolas com alimentos e bebidas.
Em volta das visitas estão os filhos Benevites, com
uma camiseta rosa ele tem sete anos e Crivalda com uma camiseta azul ela tem
quatro anos.
INT
CASA EM VÁRIOS AMBIETES
Cartela
na tela
CRIVALDA
Benevites trás a
sua filha para pegar carona no meu carro.
BENEVITES
Com uma boneca na e Crivalda está com um
carrinho de mão.
Ela já andou
bastante e agora precisa de uma carona.
Benevites vai à
direção da irmã e bota a boneca no carrinho.
Benevites pega o
carrinho e Crivalda a boneca com a boca Crivalda faz bibi fonfon
NAUDEO
O menino é que tem
que brincar com o carrinho, e a menina com a boneca, se não pode afetar no
crescimento.
CARLOS
Nada disso tanto o
menino quanto a menina que são os nossos filhos tem que crescer sem
preconceito.
ANTONIA
Por que as
crianças estão perante nós na reunião se elas não entenderem nada
CASTELA
É
bom que elas se socializem.
MARIA
ADELAIDE
Elas têm que
aprender desde cedo lidar com as diferenças.
CARLOS
Halinio começa
falar, pois todos nós queremos ouvir.
HALINIO
Dentro do nosso
meio social tem acontecido varias manifestações homofobicas eu particularmente
tive muitas dificuldades para me encontrar.
CARLOS
Que tal você expor
algumas delas em nossa conversar entre amigos
HALINIO
Quando na minha
adolescência quando eu tinha quinze anos era chamado de maricas, não tinha
muitos amigos
CASTELA
As perseguições
entre os homossexuais estão letais, e não condiz com os tempos modernos.
HALINIO
Graças à Deus tive
apoio dos amigos e dos meus pais, eles foram tudo para mim.
Eles sempre
falavam para mim estude, e vá em frente, e prove para você mesmo e para os
outros que você pode.
Entrei na universidade,
no meu estágio sofria chacotas, mas consegui me formar.
.
Lastimavelmente o
mundo retrata perseguições e mortes pela orientação sexual.
ANTONIA
E eu então que
tive de fazer sessões de psicanalises para poder realizar a minha cirurgia de
mudança de sexo.
Os meus pais nunca
me entenderam a minha situação, mas com o tempo eles aceitaram melhor.
AO
ENTARDECER A REUNIÃO ACABA
.
Maria Adelaide e Carlos levam os filhos para o
quarto.
Põe-os na cama e os cobrem.
COPA
CEIA
MARIA ADELAIDE
É hoje o dia foi
intenso e proveitoso.
CARLOS
Tranquilo pelo
menos tivemos uma extensa exposição de assuntos.
iNT SALA DE ESTAR JANTAR NOITE VINTE ANOS DEPOIS
Vinte anos depois na copa
da casa de Carlos e Maria Adelaide no jantar familiar com os dois filhos.
Maria Adelaide na
ponta da mesa, Carlos à sua esquerda Crivalda (filha) à direita de Maria
Adelaide e Benevistes (filho) à direita de Carlos.
BENEVITES
Mae eu tenho uma
colega da faculdade que está de olha em mim, mas ela tem um problema, ela não
toma nada que tenha álcool.
CARLOS
Isso não tem
problema!
BENEVITES
Como assim na
faculdade todo mundo toma cerveja!
CARLOS
Olhe para o seu pai e para a sua mãe você vê como nós nos damos, pois nós respeitamos as divergências de cada um.
Aqui em casa eu tomo a minha cerveja sem álcool e ela a com álcool, ela assiste novela e eu jornal.
Nós sempre tralhamos.
Ela desdobrava-se fora de casa e dentro para fazer comida para vocês e eu a ajudava no que eu pudesse na cozinha.
Nós ensinamos a vocês que um homem e uma mulher tem os mesmo direitos e cada um tem as suas diferenças físicas.
MARIA ADELAIDE
Nós recebemos aqui em casa tanto pessoas CIS e TRANS com a mesma gentileza para vocês verem que cada um tem que se comportar do modo que mais se indentifica.
CRIVALDA
Pode trazê-la que eu terei um imenso prazer de trocar um lero-lero com ela.
BENEVITES
Então não tem problema nenhum?
MARIA ADELAIDE
Pode ficar tranquilo que vamos trata-la muitíssimo bem.
Mudam-se os personagens, mas historia e a mesma.
Luís Antnio Padovani
03/07/2021