sábado, 3 de julho de 2021

Eliminar os preconceitos

 INT. QUARTO – FIM DE TARDE

 

Maria Adelaide está em seu quarto de frente a uma penteadeira lotada de maquiagens, joia e de um imenso espelho.

De espreita o tio de Maria Adelaide observa toda a cena por entre a porta

 

 

 

O tio de Maria Adelaide a vê a se maquiar toda em frente ao espelho de seu quarto:

 

TIO DE MARIA ADELAIDE

Para onde você vai?

Com quem você vai se encontrar?

 

MARIA ADELAIDE

Com Carlos Pinta Brava.

 

TIO DE MARIA ADELAIDE

Ele não vale nada

 

MARIA ADELAIDE

Mas é com ele que eu vou me encontrar.

 

TIO DE MARIA ADELAIDE

Então tenha uma boa sorte.

 

INT. CARRO – NOITE

 

Maria Adelaide dirige pelas ruas da cidade.

 

MARIA ADELAIDE (V.O.)


VO Nas vezes que eu encontrei com ele, estava sozinho

em uma mesa e fui até ele foi sempre educado comigo.

Será que o Carlos é tudo aquilo que o povo fala dele?

Eu o vejo sempre sozinho de um lado do outro da cidade o que falta para ele é uma companheira.

 

EXT. BAR – NOITE

 

Carlos em pé, divaga sozinho de um lado para o outo e ao mesmo tempo campeia uma mesa no bar. Músicos tocam e algumas pessoas dançam em pé. O bar está lotado.

 

Olha a sua esquerda e a sua direita


CARLOS 

(cochichando)

 Ela vira?

Será que ela será mais uma que vai me largar?

Essa vadia não vem!

Ela não pode escutar isso se não o nosso romance vai acabar antes de começar.

Eu preciso de alguém que me escute.

Eu falo, falo e ninguém me escuta.

 

Carlos acha uma mesa vazia na calçada, ele senta-se.

 

O GARÇON

 

O senhor que algo?

 

CARLOS

 

Uma cerveja sem álcool.

 

De repente chega Maria Adelaide, vê Carlos desacompanhado buzina duas vezes brevemente.

 

MARIA ADELAIDE

(grita)

Oi Pinta Brava espera um momento que já vou aí.

 

Ela estaciona o possante. Desce do carro e vai ao encontro de Carlos.

 

CARLOS

 Oi meu amor.

 

Ela o beija no rosto por duas vezes

 

MARIA ADELAIDE

Carlos o boteco está lotado.

Não tem espaço para andar direito.

Eu convidei uma amiga minha para vir conversar com a gente.

 

CARLOS

Porque você fez isso?

 

O garçom chega com a bebida de Carlos.

Pergunta para a sua companheira.

E a senhora

 

MARIA ADILAIDE

Uma cerveja.

O garçom se afasta e a conversa continua

 

 

MARIA ADELAIDE

Eu não quero voltar sozinha para casa e ela precisa de ajuda, pois tem pânico.

Eu tenho um dó dela.

 

CARLOS

É ela tem um problema sério vamos resolver o problema dela por hoje, mas você a sabe já procurou alguma ajuda?

 

MARIA ADELAIDE

Ela não é muito de conversar.

Ela vai da casa dela para o trabalho e do trabalho para casa e às vezes vou até a casa dela para tomar uma breja estupidamente gelada.

CARLOS

Vocês gostam de cerveja?

 

MARIA ADELAIDE

A gente já saiu juntos algumas vezes, e eu nunca vi você com uma cerveja!

 

CARLOS

E do que você gosta de um homem ou de cerveja.

 

 

 

MARIA ADELAIDE

 

Eu não dei liberdade para você falar assim comigo.

 

CARLOS

 

Desculpa-me, mas estou cansado de ouvir as mesmas ladainhas e vi nessa ocasião para me desabafar.

 

MARIA ADELAIDE

 

Tudo bem, eu já sabia que você é muito carente.

 

Nisso chega Acácia Medalha vinda do seu trabalho, senta ao lado de Maria Adelaide, que está abraçada com Carlos.

 

MARIA ADELAIDE

Essa é a minha amiga

O nome dela é Acácia Medalha

 

CARLOS

Vejo você trabalha na loja Riba Modas.

Você é uma negra bonita.

 

ACÁCIA MEDALHA

Isso é preconceito?

 

CARLOS

Não

 

ACÁCIA MEDALHA

Você não falaria assim de Maria Adelaide

O GARÇOM


Dirige-se a Acácia Medalha

A senhora quer algo

ACÁCIA MEDALHA


Uma cerveja

O garçom sai

 

CARLOS

É a força do costume

 

ACÁCIA MEDALHA

Não é não é preconceito

 

CARLOS

É a minha maneira de expressar.

 

ACÁCIA MEDALHA.

Não é não.

 

Na mesa do bar estão três cervejas sem álcool, sete com álcool.

MARIA ADELAIDE

Vejo que você não toma nada?

CARLOS

Como não!

Eu já tomei três latinhas de cerveja sem álcool

MARIA ADELAIDE

Mas todo mundo toma cerveja?

CARLOS

Eu não sou todo mundo.

Eu sou Carlos Pinta Brava.

MARIA ADELAIDE

Por que você quer ser diferente?

CARLOS

Eu sou diferente

MARIA ADELAIDE

Você tem algum problema?

CARLOS

Tenho você

MARIA ADELAIDE

Como você é grosseiro!

CARLOS

Grossa é você.

MARIA ADELAIDE

Eu não quero mais conversar com você.

Você não vê que eu e minha amiga tomamos cerveja só você que não.

ACÁCIA MEDALHA

Todo mundo aqui toma a sua bebida alcoólica

CARLOS

Eu não sou todo mundo.

ACÁCIA MEDALHA

Qual é o seu problema?

CARLOS

O meu problema eu resolvo com um fenobarbital, pois tenho ataque epiléptico.

ACÁCIA MEDALHA

Então você e louco, apesar de ter tudo ser um branco como Maria Adelaide com olhos azuis e tem algum dinheiro.

CARLOS

A epilepsia eu controlo com remédio e vocês precisam ir ao um psiquiatra ou psicólogo.

MARIA ADELAIDE

E prefiro ficar com a minha amiga a com você.

CARLOS

Se você realmente me quer vá a um neurologista que dará todas as orientações necessárias para você do meu problema.

MARIA ADELAIDE

Acácia Medalha me deixa com o Carlos um pouco sozinhos que preciso falar com ele.

ACÁCIA MEDALHA

Você vai ficar com esse sujeito?

MARIA ADELAIDE

Vai sentar lá no banco da praça que eu já vou.

Acácia medalha fica furiosa

ACÁCIA MEDALHA

 

 

Aponta o dedo indicador para Carlos, afirma:

 

Com você Carlos eu não ficaria nunca.

Você não quer ouvir ninguém!


CARLOS

 

Na era da inclusão, do facebook, do e-mail e do whatsap você tem um pensamento desse?

 

ACÁCIA MEDALHA

 

Isso não tem nada haver.

em

CARLOS

 

Tem tudo haver.

 

Acácia Medalha vira-se para sair e deixa o casal

 

MARIA ADELAIDE

Eu falo sério eu não saio com homem que não enche a cara.

CARLOS

Eu também falo sério você quer um copo de cerveja ou um homem?

A proposito você saiu comigo porque Nicolas Pereira falou que sou um rapaz bom sábado passado no restaurante de Abreu Lino depois que você gritou de frente a mesa que nós estávamos o seu desejo que queria um homem várias vezes e eu prontamente disse por que não eu.

Você ficou de pensar com os seus amigos, depois de alguns minutos pediu o meu telefone celular e disse se quisesse sair comigo ligaria e ontem você ligou.

MARIA ADELAIDE

 

È verdade, mas eu não sabia que você não bebia.

 

CARLOS

 

Parece que agora se arrependeu!

E agora faça a sua escolha.

 

MARIA ADELAIDE

 

Parece que eu estou em uma sinuca de bico, eu vou ter que fazer essa escolha.

 

CARLOS

 

Tem, pois eu não posso satisfazer você das duas maneiras.

Se você quer um homem eu estou aqui.

Se você quer cerveja fique com ela.

MARIA ADELAIDE

Então vamos andar um pouco.

Aonde você quer ir?

CARLOS

Quero comer cachorro quente.

MARIA ADELAIDE

Então vamos assim eu vou pensar mais um pouco

CARLOS

E a sua amiga?

MARIA ADELAIDE

Ela vai junto.

Ambos saem agarrados, passa por Acácia Medalha, Maria Adelaide acena para a amiga e ela segue o casal ao lado de Maria Adelaide.

 

EXT. CALÇADA/CARRINHO DE CACHORRO QUENTE - NOITE

No carrinho de cachorro quente da Márcia. Com oito cadeiras de plástico e duas mesas sobre a calçada de frente a um estacionamento

ACÁCIA MEDALHA

Eu quero um cachorro quente completo.

MARIA ADELAIDE

Eu quero sem catchup

CARLOS

Eu quero sem mostarda e sem batata palha.

MÁRCIA

E aí e a namorada?

CARLOS

Ela está aqui.

É esta loirona, altona

MARIA ADELAIDE

Eu não sou a sua namorada.

Eu vou namorar você quando você tiver atitude homem.

Homem que é homem toma cerveja.

Seja sociável, agradável e outro aviso você não usa calça jeans.

CARLOS

Não é porque não quer eu estou sozinho e você também

Pelo que eu ouço você quer cerveja e calça jeans então fique com eles.

MARIA ADELAIDE

Eu quero é um homem com atitude de homem.

CARLOS

O que você entende por atitude de homem?

Você disse quer homem

Eu quero uma mulher

Tudo o que eu tenho você quer

Tudo que você tem eu quero.

MARIA ADELAIDE

(dirigindo-se a Márcia - proprietária do carrinho)

Você não toma cerveja?

 

 

Todo mundo tem problemas!

MARIA ADELAIDE

Quem é você?

 

Márcia é o meu nome.

O Carlos vem sempre aqui para conversar comigo e o meu marido Pedro Lam

O meu marido tem colesterol e diabetes

ACÁCIA MEDALHA

Isso todo mundo tem, mas Carlos tem problema de louco.

MÁRCIA

Eu não tenho nenhum problema com ele

O que falta a ele é alguém que o apoio

Ele não pode ficar sozinho

Ele precisa de alguém que o escute.

Toda panela tem a sua tampa.

MARIA ADELAIDE

Eu concordo então eu vou ficar com ele

MÁRCIA

Então não se esqueça do que eu falei, e não deixa que ninguém influenciar no relacionamento de vocês dois.

MARIA ADELAIDE

Pode deixar eu vou fazer chá

MÁRCIA

O que?

MARIA ADELAIDE

Pode deixar.

Nós vamos fazer uma linda família.

MÁRCIA

Fico feliz por vocês

ACÁCIA MEDALHA

Você vai ficar com esse louco?

 

CARLOS

Parece que você não entendeu!

O mundo esta em mudanças com a inclusão de pessoas que antes ninguém aceitava.

MARIA ADELAIDE

Do mesmo modo que você sofre preconceito por ser negra e alta ele sofre por ser epiléptico.

ACÁCIA MEDALHA

Então bom proveito.

MÁRCIA

Do que vocês vieram?

MARIA ADELAIDE

Eu vim de carro que está ao lado do bar do Reneu

Carlos já me esperava no bar.

CARLOS

E a sua amiga.

MARIA ADELAIDE

Eu vou deixa-la na casa dela.

Carlos, Maria Adelaide e Acácia Medalha saem.

O carrinho do lanche começa a lotar.

São vinte e uma horas

MÁRCIA

(aos berros)

Boa sorte aos dois.

INT. SALA DE VISITAS TARDE

Cartela na tela “8 ANOS DEPOIS”.

 

 

Convidados de Carlos e Maria Adelaide sentados no sofá Antonia, nome social de Paolo Castro, à sua direita Castela Milagra Porta Dura, à esquerda de Antonia, em uma poltrona de um lugar encostada à janela da sala está O Halinio Julgares, em uma outra poltrona de um lugar só localizada perto de uma das paredes e mais duas cadeiras retiradas da mesa da copa estão Bianca e na outra Naudeo.

Há uma mesa de centro no ambiente onde estão várias sacolas com alimentos e bebidas.

Em volta das visitas estão os filhos Benevites, com uma camiseta rosa ele tem sete anos e Crivalda com uma camiseta azul ela tem quatro anos.

 

INT CASA EM VÁRIOS AMBIETES

Cartela na tela

 

CRIVALDA

 

Benevites trás a sua filha para pegar carona no meu carro.

 

BENEVITES

 Com uma boneca na e Crivalda está com um carrinho de mão.

 

 

Ela já andou bastante e agora precisa de uma carona.

Benevites vai à direção da irmã e bota a boneca no carrinho.

Benevites pega o carrinho e Crivalda a boneca com a boca Crivalda faz bibi fonfon

 

NAUDEO

 

O menino é que tem que brincar com o carrinho, e a menina com a boneca, se não pode afetar no crescimento.

 

CARLOS

 

Nada disso tanto o menino quanto a menina que são os nossos filhos tem que crescer sem preconceito.

 

ANTONIA

 

Por que as crianças estão perante nós na reunião se elas não entenderem nada

 

 

CASTELA

 

É bom que elas se socializem.

 

MARIA ADELAIDE

 

Elas têm que aprender desde cedo lidar com as diferenças.

 

CARLOS

 

Halinio começa falar, pois todos nós queremos ouvir.

 

HALINIO

Dentro do nosso meio social tem acontecido varias manifestações homofobicas eu particularmente tive muitas dificuldades para me encontrar.

 

CARLOS

 

Que tal você expor algumas delas em nossa conversar entre amigos

 

HALINIO

 

Quando na minha adolescência quando eu tinha quinze anos era chamado de maricas, não tinha muitos amigos

 

CASTELA

 

As perseguições entre os homossexuais estão letais, e não condiz com os tempos modernos.

 

HALINIO

 

Graças à Deus tive apoio dos amigos e dos meus pais, eles foram tudo para mim.

Eles sempre falavam para mim estude, e vá em frente, e prove para você mesmo e para os outros que você pode.

Entrei na universidade, no meu estágio sofria chacotas, mas consegui me formar.

.

Lastimavelmente o mundo retrata perseguições e mortes pela orientação sexual.

 

ANTONIA

 

E eu então que tive de fazer sessões de psicanalises para poder realizar a minha cirurgia de mudança de sexo.

Os meus pais nunca me entenderam a minha situação, mas com o tempo eles aceitaram melhor.

 

 

 

AO ENTARDECER A REUNIÃO ACABA

.

Maria Adelaide e Carlos levam os filhos para o quarto.

Põe-os na cama e os cobrem.

 

COPA CEIA

 

 

MARIA ADELAIDE

 

É hoje o dia foi intenso e proveitoso.

 

CARLOS

Tranquilo pelo menos tivemos uma extensa exposição de assuntos.

 iNT SALA DE ESTAR JANTAR NOITE VINTE ANOS DEPOIS

Vinte anos depois na copa da casa de Carlos e Maria Adelaide no jantar familiar com os dois filhos.

Maria Adelaide na ponta da mesa, Carlos à sua esquerda Crivalda (filha) à direita de Maria Adelaide e Benevistes (filho) à direita de Carlos.

 

BENEVITES

 

Mae eu tenho uma colega da faculdade que está de olha em mim, mas ela tem um problema, ela não toma nada que tenha álcool.

CARLOS

 

Isso não tem problema!

BENEVITES

Como assim na faculdade todo mundo toma cerveja!

 

CARLOS

Olhe para o seu pai e para a sua mãe você vê como nós nos damos, pois nós respeitamos as divergências de cada um.

Aqui em casa eu tomo a minha cerveja sem álcool e ela a com álcool, ela assiste novela e eu jornal.

Nós sempre tralhamos.

Ela desdobrava-se fora de casa e dentro para fazer comida para vocês e eu a ajudava no que eu pudesse na cozinha.

Nós ensinamos a vocês que um homem e uma mulher tem os mesmo direitos e cada um tem as suas diferenças físicas.

 

MARIA ADELAIDE

 

Nós recebemos aqui em casa tanto pessoas CIS e TRANS com a mesma gentileza para vocês verem que cada um tem que se comportar do modo que mais se indentifica.

 

CRIVALDA

 

Pode trazê-la que eu terei um imenso prazer de trocar um lero-lero com ela.

 

BENEVITES

Então não tem problema nenhum?

 

MARIA ADELAIDE

 

Pode ficar tranquilo que vamos trata-la muitíssimo bem.

Mudam-se os personagens, mas historia e a mesma.

Luís Antnio Padovani

03/07/2021